quarta-feira, 10 de março de 2010

A criança sabe desenhar, o adulto sabe enxergar?

Certa vez, quando tinha seis anos, vi num livro sobre a Floresta Virgem, "Histórias Vividas", uma imponente gravura. Representava ela uma jibóia que engolia uma fera. Eis a cópia do desenho.

Dizia o livro: "As jibóias engolem, sem mastigar, a presa inteira. Em seguida, não podem mover-se e dormem os seis meses da digestão."

Refleti muito então sobre as aventuras da selva, e fiz, com lápis de cor, o meu primeiro desenho. Meu desenho número 1 era assim:

Mostrei minha obra prima às pessoas grandes e perguntei se o meu desenho lhes fazia medo.

Respondera-me: "Por que é que um chapéu faria medo?"

Meu desenho não representava um chapéu. Representava uma jibóia digerindo um elefante. Desenhei então o interior da jibóia, a fim de que as pessoas grandes pudessem compreender. Elas têm sempre necessidade de explicações. Meu desenho número 2 era assim:

As pessoas grandes aconselharam-me deixar de lado os desenhos de jibóias abertas ou fechadas, e dedicar-me de preferência à geografia, à história, ao cálculo, à gramática. Foi assim que abandonei, aos seis anos, uma esplêndida carreira de pintor. Eu fora desencorajado pelo insucesso do meu desenho número 1 e do meu desenho número 2. As pessoas grandes não compreendem nada sozinhas, e é cansativo, para as crianças, estar toda hora explicando.


Esse trecho inicial do livro “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry (sem os respectivos desenhos porque não sei colocá-los aqui), é uma adorável confirmação do que disse a psicopedagoga Cristina Vandoros Quilici , vice-presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia, sobre a melhor maneira de respeitar o desenho de uma criança. “Mais importante do que o grafismo é o que ela conta sobre o desenho”, explicou.

O desenho é uma encantadora revelação do desenvolvimento infantil, recurso riquíssimo, que estimula e expressa, que contribui significativamente para uma boa coordenação motora e para a elaboração emocional das crianças.

“Desde o manuseio dos lápis, do rasgar o papel, tanto para a coordenação dessa criança quanto para expressão dos seus sentimentos. Muitas vezes, a criança traz para o desenho aquilo que ela está sentindo, o que é a sua fantasia, o que é a sua brincadeira”, afirmou.

A psicopedagoga disse que os pais precisam valorizar o que a criança produz e mostra, respeitando a importância de cada fase do desenvolvimento do desenho. “A criança começa fazendo bolinhas e riscos aleatórios. Aquela bolinha pode representar várias coisas. Então, ela não deve ser podada na sua criatividade quando ela disser isso aqui é um boi”, explicou.

Segundo ela, é muito mais comum do que se imagina, a reação negativa de pais e professores diante do desenho infantil. Não só insistem que aquilo não é um boi, e, sim, uma bola, como dizem que a criança desenhou ou pintou “feio”. “Tem mãe e tem professor que fala isso. Nossa, é uma coisa absurda!”, disse.

Ora, se a criança desenhou um boi, ali está um boi. Se ela fizer uma estrela e disser que é um peixe, é um peixe! Na cabeça dela, é peixe, ela quis representar um peixe, não importa se para o adulto aquilo é uma estrela.

Cristina Quilici recomenda aos pais que procurem controlar a própria ansiedade diante do desenho infantil. Antes de sair elogiando a bela árvore carregada de maças verdes, é bom perguntar ao filho o que ele desenhou, pois pode ser um limoeiro. Para enxergar o que a criança está mostrando, pergunte, converse, desvende com ela, brinque com aquele desenho.

“Ela pode achar que você não está entendendo o que ela quer mostrar. Isso acontece uma vez, não tem problema nenhum. Só que uma, duas, três vezes, chega uma hora em que ela fala assim, não vou mais mostrar nada!”, afirmou. Para a criança, essa sequência de visões equivocadas sobre o que ela faz é sinal de que a sua expressão não é valorizada pelo adulto.

Segundo Cristina Quilici, a criança aprende a desenhar sozinha, como aprende a sugar o seio da mãe. Ninguém precisa ensinar, basta o estímulo. E estimular é oferecer possiblidades. Amanhã, continuamos com esse assunto.

Cristina Vandoros Quilici é psicopedagoga, vice-presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia.

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terça-feira, 9 de março de 2010

Um exemplo de que assunto de adulto não cabe em cabecinha de criança

Entrevistei a psicopedagoga, Cristina Vandoros Quilici , vice-presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia, sobre a importância do desenho no desenvolvimento infantil. Foi uma conversa muito interessante! Pretendo começar a tratar do tema, aqui no blog, a partir de amanhã, se tiver tempo e inspiração para escrever sobre esse assunto que eu gosto tanto.

Ficamos de agendar uma nova entrevista sobre a brincadeira de esconde-esconde, tão presente na vida das crianças. O assunto surgiu no meio da conversa e não embarquei nele para não fugir da pauta e estourar o tempo da entrevista. Mas vou adiantar um caso que ela me contou, que dá a idéia da importância do esconder, na infância. Segundo ela, a criança faz um preparo mental com o escondido.

Um exemplo, um alerta!

Uma criança de oito anos, que não conseguia ser alfabetizada de jeito nenhum, chegou ao consultório de psicopedagogia e revelou uma história muito emblemática dos mistérios da mente humana.

A criança tinha visto em um telejornal uma notícia de suicídio. Era um desses programas em que os apresentadores ficam praguejando contra tudo e contra todos e melecando a tela com sangue: uma mulher morreu ao se jogar de um viaduto. Imaginem o sensacionalismo!

Logo depois de ouvir a história na televisão, a criança presenciou a avó chorando desesperada ao telefone. Ela repetia inconformada: “por que ela fez isso, minha filha tinha tudo, por que ela foi se jogar de um viaduto?...

A criança ligou as duas histórias, as falas da avó e do apresentador, e concluiu: era a tia dela que tinha morrido, vítima de suicídio.

Depois de acompanhar calada toda a confusão na casa em torno da tragédia, resolveu perguntar à mãe: “Por que a tia fulana se matou?”. Provavelmente para tentar proteger o filho de um trauma, a mãe respondeu: “Ela não se matou, ela caiu sem querer, estava fazendo rapel e caiu.”

Cristina Quilici explicou que a criança tinha conhecimento da verdade, sabia o que tinha acontecido. Mas, essa verdade precisou ser escondida e guardada. Ela transferiu isso para a aprendizagem. Tudo o que ela sabia, escondia, pois achava que tudo o que sabia estava errado. A criança precisou de um ano de tratamento “para tirar esse nó da cabeça”, para poder mostrar aquilo que sabia e avançar na alfabetização.

A matéria da mania das crianças de brincar de esconder, com certeza, vai ser muito mais encantadora do que esse caso tão triste. Mas, achei importante registrar aqui, pois é um exemplo muito forte de que as dificuldades de aprendizagem podem estar relacionadas a alguma coisa escondida, muito bem guardada na cabecinha de uma criança.

Neste caso, o fracasso na escola serviu para uma criança mostrar que precisava de ajuda para superar um trauma. As providências foram corretas e ela seguiu a vida em frente. Pensando bem, não é um caso triste, é um caso feliz: uma mãe quis proteger um filho, parece que errou por tentar esconder a verdade, mas,continuou cuidando dele até descobrir o que tinha acontecido e ajudá-lo a lidar com aquela história.

E fica também um alerta importante: esses telejornais são devem ser vistos por crianças. Na minha opinião, nem por adultos, mas, aí é outra história!

Anvisa retira de resolução questões relacionadas à publicidade infantil

Para o Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana, decisão da Agência é um retrocesso. Segundo pesquisa realizada pelo Datafolha a pedido do Alana, guloseimas são os itens mais pedidos pelas crianças para os pais

Na última semana, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) sinalizou que publicará nova regra sobre publicidade de alimentos e de bebidas não saudáveis sem contemplar proteção especial ao público infantil. A medida foi anunciada na última semana em reuniões privadas que a Agência promoveu de 2 a 4 de março, em Brasília, com entidades e organizações que vinham acompanhando a elaboração da regra desde 2006.

A coordenadora geral Projeto Criança e Consumo (Instituto Alana), Isabella Henriques, alerta para as sérias consequências do novo texto, que excluiu todos os artigos relacionados à proteção da infância, como, por exemplo, o veto ao uso de desenhos em publicidades, à promoção de alimentos e bebidas não saudáveis em escolas e à promoção de ofertas com brindes.

“Se a Anvisa publicar a resolução sem contemplar essas questões, será um retrocesso. A população brasileira será mais uma vez negligenciada em favor de interesses privados”, diz Isabella. Ela explica que a Anvisa tratou as crianças como consumidores comuns, enquanto deveriam ter um tratamento diferenciado por se tratar de um público consumidor hipervulnerável.

“Esse conceito da hipervulnerabilidade da criança frente às relações de consumo foi simplesmente desconsiderado pela nova proposta. Isso foi uma surpresa, pois outros órgãos do governo federal, como o Ministério da Justiça, e a própria Anvisa já se manifestaram sobre a necessidade de uma proteção diferenciada ao público infantil”, conclui.

A coordenadora refere-se a uma força-tarefa criada em 2009 pelo Sistema Nacional de Defesa do Consumidor (SNDC) com a missão de proteger os consumidores hipervulneráveis. Essa força-tarefa tem a participação do Projeto Criança e Consumo, de um grupo de comunicação social do Ministério Público Federal, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

Segundo a Anvisa, a decisão foi pautada por um acordo de autorregulamentação firmado em 2009 por 25 empresas do setor alimentício. “É dever do Estado regular essas questões e determinar as regras para todo o setor, ao invés de se pautar em um acordo sem valor legal de apenas 25 empresas”, conclui Isabella.

Pesquisa Datafolha – “Consumismo infantil”

O Instituto Alana encomendou pesquisa inédita para o Datafolha, que teve como um dos objetivos medir a percepção de pais de crianças entre 3 e 11 anos completos sobre a relação entre as propagandas direcionadas ao público infantil e as mudanças alimentares das crianças.

O levantamento foi realizado de 22 a 23 de janeiro de 2010, na cidade de São Paulo. Foram ouvidos 411 pais e mães, de todas as classes sociais, com destaque para a classe C, que correspondeu a 52% dos entrevistados. A margem de erro é de 5 pontos percentuais.

A pesquisa revelou que as principais preocupações dos pais são a exposição à violência e cuidados com a alimentação dos filhos.

Com relação aos pedidos mais freqüentes, as guloseimas foram as mais mencionadas, bem à frente de brinquedos e videogames.

Os pedidos mais “corriqueiros” foram observados nas duas faixas etárias estudadas (de 3 a 7 e de 8 a 11 anos completos), mas com percentuais mais altos nos mais novos.

Outro dado alarmante: os pais revelaram que os filhos consomem bolachas (82%), refrigerantes (70%) e salgadinhos (64%) algumas vezes por semana. Nesse sentido, estimulados a responder se concordavam ou não com a frase “A oferta de prêmios e brindes influenciam a escolha do produto/ alimento pelo(s) meu(s) filho(s)”, 75% dos pais concordaram.

Fonte: Criança e Consumo

segunda-feira, 8 de março de 2010

Mais mãe, menos jornalista

Não vou tentar ser diferente, no Dia Internacional da Mulher, vou falar da minha vida de mulher. E não há nada mais constante e conflitante do que a interminável discussão sobre a dificuldade da mulher em ser feliz desempenhando os seus diferentes papéis humanos e sociais.

Vivemos em conflito interno entre o que queremos e o que esperam e exigem de nós. Mesmo quando estamos bem resolvidas, parece que carregamos um certo desconforto, uma certa desconfiança em relação às nossas escolhas.

Por mais que tentemos atender às nossas próprias expectativas de mulher, a impressão é de que somos permanentemente acusadas pelo excesso e pela falta na dedicação aos filhos, ao trabalho, ao marido, à família, aos amigos, e até pelo culto ao corpo. Escravas da beleza ou desmanzeladas!

Se passamos a semana inteira esperando o final de semana, e o ano inteiro esperando as férias, por que as pessoas se espantam tanto quando alguém resolve declarar que a vida pessoal é mais importante do que a profissional? Claro que ser for um homem, ou é brincadeira, ou é um cara muito sensível. Se for mulher...

Não conheço trabalhador, homem ou mulher, que não lamente quando os feriados do ano caem no sábado ou no domingo. Também não conheço quem goste de trabalhar de graça ou ganhando pouco. Aliás, sempre achamos o salário ou rendimento baixo pelo tanto de vida que gastamos trabalhando. Ou seja, se fazemos de graça, as outras coisas são mais importantes e mais gostosas de fazer.

E você, já ouviu alguém suspirando no sábado, dizendo que não vê a hora de chegar à segunda-feira?

Eu sempre digo que a melhor realização profissional é ter uma atividade que permita e patrocine todas as outras. Trabalhar é bom, mas, por mais adrenalina que despeje na corrente sanguínea não chega a causar nenhum prazer sexual. Nenhuma vitória no campo do trabalho é mais intensa e gostosa do que um orgasmo, para ficar em um só exemplo.

Passei grande parte da minha vida com as meninas sendo mais jornalista do que mãe. Pelo menos no volume de horas de dedicação e no tamanho do desgaste físico e emocional na reportagem, edição, assessoria de imprensa, tanto faz, em três e até quatro tempos.

Entre uma dormida e outra, levava as crianças para a escola, fazia feira, trabalhava em um emprego, buscava criança na escola, fazia supermercado, corria para outro emprego, participava de uma reunião de pais (de mães!), levava criança ao dentista, largava uma reportagem no meio para levar uma criança ao pronto-socorro, chegava atrasada em uma apresentação na escola, saía com os amigos e dormia sobre os braços na mesa de um bar (não de bêbada, de sono mesmo). E sentia um orgulho besta por fazer tanta coisa ao mesmo tempo.

Na verdade, depois de muita terapia, consegui enxergar: fui mais pai do que mãe. Precisei ser pai, não escolhi ser pai. Eu e tantas mulheres chefes de família, que assumem o sustento dos filhos de pais que não arcam com as suas responsabilidades e não exercem minimamente a função paterna.

A urgência de dar teto para morar e de colocar comida na mesa e de garantir saúde e educação de qualidade atropela a generosidade materna de que as crianças tanto precisam. A obrigação além da conta rouba a suavidade do nosso olhar, arranca a doçura das nossas palavras, mutila a delicadeza dos nossos gestos.

É difícil ouvir com calma uma criança, abaixar, olhar nos olhos, tentar entender porque ela dá tanta importância para determinada coisa quando estamos afobadas entre uma urgência e outra.

Sim, somos diferentes! Queremos os mesmos direitos, não os mesmos deveres. Queremos o direito de trabalhar e de sermos remuneradas igualmente por tarefas iguais. Mas não queremos assumir o papel de homem nenhum. Os nossos papéis de mulher já bastam para encher os dias, a cabeça e o coração.

Queremos engravidar, parir, amamentar, fazer coisas que só as fêmeas fazem. Mas, o que os machos fazem enquanto isso? Qual a parte que lhes cabe nessa aventura maravilhosa que é ter um filho?

Eu acho que ainda falta muito, mas muito, infinitamente muito para resolvermos essas questões na sociedade. Para escorregar no feminismo e cair no machismo, basta um passo. Não é uma discussão fácil, não é simples. É difícil entender papéis humanos e sociais de cada um. Se o mundo não conseguiu dar respostas satisfatórias até agora não sou eu quem vai dar.

Mas, dentro de casa, a vida pode ser bem mais equilibrada entre homens e mulheres. Não encontramos soluções para o mundo, mas, inventamos e reinventamos o nosso jeito de viver. De uma coisa, tenho certeza: o exercício responsável e alegre das funções materna e paterna, por mães e pais, é bom para crianças, mulheres e homens.

Eu estou conseguindo resgatar o meu sorriso feminino, a minha cara de mulher: cansada, com rugas, mas, com olhos e boca de mulher, feminina! E, com olhar de mãe, acompanho e estimulo o desenvolvimento do meu filho. Com fala de mãe, brava e exigente, mas, carinhosa e brincalhona, converso com o meu filho. Sou a mãe, o pai dele é o pai. Isso é muito confortável, é uma deliciosa constatação como mulher.

Não quero ter um marido que me ajude, essa frase me irrita profundamente! Quando o marido ajuda em casa, ajuda com as crianças (argh!), é porque a responsabilidade é da mulher e o “bonzinho” ajuda. Quero (e tenho!) um companheiro que divida responsabilidades e tarefas comigo. Que desempenhe papéis de homem, pai, profissional.

Sou mulher, mãe, jornalista. E não tenho constrangimento nenhum em dizer: o que mais me mobiliza, o que mais me realiza, o que mais me dá alegrias é ser Mãe. E sou a mãe que gosto de ser porque a mulher e a jornalista me ensinam, me enriquecem como ser humano, e me dão espaço para exercer o meu direito à maternidade. Não que esteja tudo em plena harmonia sempre. Não dá para ser mulher sem dúvidas e dramas!

Mas, a novidade do momento, nessa história emocionante e cansativa de 46 anos, é o deslumbramento por ser mãe sem precisar ser pai. Na minha vida, na minha experiência de mulher, com três filhos, com diferença de idade de mais de 20 anos entre eles, uma carreira que adoro, uma participação política que dá o rumo da minha intervenção na sociedade, a chave do segredo está aí: não quero ser chefe de família!

Sobrecarga no lar impacta ascensão feminina no trabalho

No Dia Internacional da Mulher, o Ipea divulgou comunicado sobre a desigualdade de gênero no mercado e no emprego doméstico

A persistente responsabilização das mulheres pelos trabalhos domésticos não remunerados é apontada como fator preponderante na desigualdade entre homens e mulheres no mercado de trabalho. Essa é uma das conclusões do Comunicado do Ipea n° 40, Mulheres e trabalhos: avanços e continuidades, que o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou nesta segunda-feira, 8, Dia Internacional da Mulher.

Apesar de ocuparem cada vez mais postos no mercado de trabalho, 86% das mulheres ainda são responsáveis pelos trabalhos em casa, enquanto os homens são 45%, segundo dados de 2008 do IBGE. Elas dedicam em média quase 24 horas por semana aos afazeres domésticos. E os homens, apenas 9,7 horas.

O estudo trata, ainda, das consequências dessa naturalidade em atribuir às mulheres os afazeres domésticos. Os efeitos vão desde a menor disponibilidade da mulher às jornadas de trabalho que exijam mais tempo, à ação dos estereótipos e a ocupação de 42% das mulheres em posições precárias, em comparação com 26% dos homens.

A coordenadora de Igualdade e Gênero do Ipea, Natália Fontoura, afirmou que, se de um lado há muitas trabalhadoras precarizadas, no outro extremo há um crescente grupo de profissionais liberais mais escolarizadas e bem remuneradas que podem se lançar no mercado de trabalho porque delegam as responsabilidades familiares a outras mulheres, as empregadas domésticas. "Isso cria um encadeamento perverso de mulheres ligadas às atribuições que deveriam ser de todos, independentemente de ser homem ou mulher", disse a técnica.

Políticas públicas
As mudanças nos arranjos familiares, com quase 35% de mulheres chefes de família, o tempo médio de estudo das mulheres de 7,6 anos - que já é superior ao dos homens (7,2 anos) -, e o percentual crescente de mulheres que entram no mercado de trabalho são algumas das principais mudanças registradas entre 1998 e 2008 no Brasil. Apesar disso, o Comunicado mostra que praticamente nada mudou com relação ao trabalho doméstico no que diz respeito à distribuição dos afazeres entre homens e mulheres.

Natália Fontoura alertou para o papel das políticas públicas e das instituições no sentido de promover uma mudança cultural e estimular o compartilhamento de atividades domésticas. A pesquisadora sugeriu uma licença paternidade maior e também licenças paternais que tanto mulheres quanto homens poderiam usar para resolver emergências dos filhos. "Isso muda a visão do empregador. Se qualquer um pode tirar essa licença, na hora de escolher entre uma mulher ou um homem, a mulher não será mais discriminada, além de o pai ganhar mais tempo para a família", concluiu.

Leia o Comunicado do Ipea n° 40 na íntegra


Fonte: Assessoria de Comunicação Social do Ipea

Desigualdade ainda pesa contra as mulheres no mercado de trabalho

Brasília – A segunda década do século 21 começa para as mulheres como terminou o século passado. Elas trabalham mais e ganham menos, ainda que sejam mais qualificadas do que os homens. Dados divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego mostram que, no mercado formal, as mulheres de todos os níveis de escolaridade ganham menos do que os homens com o mesmo grau de formação.

Veja a matéria na Agência Brasil