sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Escola é necessidade da mãe e não da criança pequena

Eu: - Vamos tomar banho, Gabriel, você não quer ir brincar na escola?
Ele: - Não, tô bincando aqui em casa.

Fiz entrevistas interessantes essa semana e mal tive tempo para escrever. Os assuntos são variados, mas um aspecto é recorrente e me marcou bastante: o quanto a mãe é fundamental nos primeiros anos de vida do bebê. Basicamente, as crianças precisam da mãe!

Aos pais, cada vez mais participativos, parabéns, continuem melhorando sempre, mas vocês estão, mesmo, em segundo plano. Acho que o melhor que podem fazer é abrir espaço para que as mulheres possam ser mães. E elas precisam estar tranquilas para lamber a cria... Portanto, os homens devem continuar trocando fraldas, dando banho e mamadeira, claro, mas, principalmente, precisam arrumar a casa, colocar o lixo, ir ao supermercado e fazer todas as compras chatas, pagar as contas... Sei lá, é tanta coisa para fazer! Para o bom desenvolvimento das nossas crianças, as mulheres precisam ser poupadas dessa rotina massacrante!

Tenho muito receio de ser devorada por feministas xiitas. Tenho receio de parecer retrógrada e conservadora. Mas, depois de lutarmos tanto pelo nosso direito ao trabalho, acho que precisamos lutar pelo nosso direito à maternidade. Cada vez mais, acho que estamos muito sobrecarregadas e a última moda é responsabilizar as mães pelos maus hábitos dos filhos. Além de se desdobrar para dar conta de tudo, tem de ser suave, compreensiva, carinhosa, alegre... Sempre alerta, carregar o mundo nas costas com um sorrisinho meigo nos lábios.

Acho que posso falar exatamente porque estou em uma situação privilegiada, trabalhando em casa, podendo adaptar a minha rotina profissional às necessidades do Gabriel. Eu até me surpreendo com a minha paciência, com a minha calma... Mas não estou livre da cobrança interna por me dar a esse luxo. É um conflito danado viver com o fantasma de estar me desvalorizando como mulher. Ou seja: as mães são fundamentais para criarem pessoas saudáveis e produtivas; elas são chamadas o tempo todo a fazer isso, mas..., essa tarefa não tem valor social. É difícil bancar essa escolha e eu vivo dando explicações a mim mesma.

Acho que não é difícil, não, é impossível oferecer essa vidinha tranquila e cheia de cuidados que, em tese, as crianças nessa idade precisam, e trabalhar o dia todo, cuidar das próprias necessidades, administrar a casa e o casamento. Se a vida dos pais é atribulada, as crianças não têm como ficar de fora. E essa rotina já é pesada para quem “só” administra a casa, se me dessem um tanque de roupa para lavar no final de semana, a minha paciência iria para o espaço! Mas, administrar já é muito trabalho: até uma fruta chegar à boca da criança, precisa ser comprada, colocada na fruteira até amadurecer, ser higienizada, descascada e cortada. Depois, ela vai se lambuzar inteira até os cabelos e deixar um rastro de sujeira, do cadeirão ao chão para “alguém” limpar.

Hoje, fui conversar na escola e explicar porque o Gabriel está chegando cada dia em um horário. A entrada dele é às 9 horas. Eu espero que ele acorde, tomamos café com calma, ele faz cocô, toma banho e saímos de casa sem preocupação com o horário. Acho que ele é pequenininho, ainda não precisa ser escravo do relógio.

Já passava das nove, perguntei: “Vamos tomar banho, Gabriel, você não quer ir brincar na escola? Ele respondeu: “Não, tô bincando aqui em casa”. Eu dei uma gargalhada e deixei que ele brincasse mais um pouco. Mas, e se fosse 7 horas da manhã, eu tivesse horário rígido para entrar no trabalho, aflita, pensando que o trânsito aumenta a cada minuto, como eu poderia achar graça? É fácil respeitar o ritmo da criança quando não se está pressionada por um monte de coisa para fazer. E isso pensando em uma vida classe média, imagine se fosse saindo de ônibus lotado para deixar a criança na creche pública!

Na conversa com a coordenadora da escola, ela acabou contando que tem criança que chega de pijama porque não quis tirar de jeito nenhum e a mãe já estava atrasada. E é assim mesmo! Os pequenininhos ficam enrolando de todas as maneiras: demoram para tomar o leite, pedem mais um pedaço de pão, não querem sair do banho, escapam a cada peça de roupa, tiram um pé do tênis antes que a gente consiga colocar o outro, vão catando brinquedos e insistem para levar todos para a escola..., e o relógio correndo... Aí, você solta a porta do elevador para correr atrás dele e, claro, o elevador vai embora..., e o relógio correndo...

Na avaliação da psicóloga e psicanalista Audrey Setton Souza, até um pouco antes de um ano de idade, a criança começa a perceber que a mãe é separada dela e isso é muito importante para o ingresso na escola. “Ela já tem condições de perceber que a mãe vai e volta, vai e volta... Então, ela tem um pouco mais seguro dentro dela essa idéia de que a mãe gosta dela e de que esta relação está estabelecida com uma certa segurança”, explicou.

Segundo ela, esse é um fator muito importante para que a criança fique bem na escola. O bebê precisa construir dentro dele a segurança de uma boa relação com a mãe para confiar que ela vai voltar. E isso se constrói no período inicial da vida, com uma mãe próxima, que pode entender e acolher. Essa imagem da mãe é fundamental para a confiança da criança.

Perguntei por que só a mãe, se a presença do pai também não era importante. Segundo ela, existem algumas teorias de que o pai já começa a entrar nessa fase, mas ela acredita que é predominante a mãe. “Do modo como eu concebo, é mais a mãe. A mãe é a grande figura!” Para a psicanalista, só por volta dos três ou quatro anos, a criança começa a entrar mais nessa relação a três.

Na opinião de Audrey Setton Souza, a escola não é uma necessidade para a criança de dois anos de idade. Nessa idade, ela não precisa da socialização que as instituições oferecem. “Não é uma idade onde a criança já precisa da escola como esse ambiente alternativo onde ela vai conhecer o mundo. Não é o momento onde ela se abre para isso e quer isso”, afirmou.

A psicanalista fez questão de frisar que não está desaconselhando o espaço escolar como solução para cuidar da criança enquanto a mãe trabalha. Mas acredita que é importante esclarecer que, nessa idade, a escola é uma necessidade da mãe e não da criança. “Eu acho que a criança pode lidar com isso desde que a escola tenha muito claro que a função não é socializar, é oferecer um ambiente o mais próximo do ambiente materno possível”, defendeu.

Para ela, esse ambiente deve estar preparado para acolher as angústias da criança e saber o que ela está sentindo. É importante não fazer com que ela sofra mais do que tem capacidade de dar conta. A escola precisa, por exemplo, resolver os conflitos que a criança ainda não sabe resolver.

Vou continuar com esse assunto na semana que vem. Mas já vou deixar aqui uma pitada.

Quanto à crença de muitos pais de que as crianças precisam brincar com outras crianças: “É bom brincar com outras crianças, claro, de vez em quando. Ela aprende essas coisas da convivência. É ótimo brincar. Agora, no geral, é legal brincar na presença da mãe, começar a aprender estar sozinho, com a mãe por perto. Isto é, ter atividade independente da mãe, com a mãe por perto...”

Haja mãe!

Audrey Setton Souza é psicóloga e psicanalista, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

2 comentários:

Renata disse...

Thelma,
Realmente este papel de mâe, trabalhadora, esposa, estudante, tentativa de ser uma mulher plena e absoluta, é estafante! Por mais que eu tente me desvencilhar da culpa por deixar o João tanto tempo na escola, ou por trabalhar a menos num determinado dia, não consigo. É um eterno dilema!
E numa cidade como São Paulo, em que o trabalho é quem manda, e as contas a pagar, também, fica difícil de fazer esta escolha por ser uma mãe presente sempre, fazendo parte da classe média que luta, diariamente, por uma vida mais confortável e melhor.
Mas também penso se, apesar deste papel de mãe ser importante pra criança, também não é necessário ser avaliada a mulher e seus desejos. Explico: acho que trabalhando, não tanto, a mulher consegue dar uma atenção de mais qualidade ao filho.
Gostaria de trabalhar menos. Mas, deixar de trabalhar, não.
Beijos.

Thamara Torrecilha disse...

Olá,
Desta vez não vou concordar completamente com este post ... acho que a escola é importante sim para as crianças. A Laura, de 1 ano e sete meses vai para o berçário, infelizmente, desde os 4 meses e meio. Claro que eu gostaria de ter ficado mais tempo com ela, mas precisei voltar ao trabalho. Adoraria trabalhar menos, mas não consigo por enquanto ... ela fica no berçário das 09:30h às 18:30h às vezes até 19h .... já cheguei para buscá-la às 20h por causa do trânsito e chorei no volante do carro porque eu não conseguia chegar ...
Mas, mesmo com todos estes perrengues acho que é importante que ela fique na escola, convivendo com outras crianças. Nunca passou pela minha cabeça deixá-la com uma babá, ou com uma das avós, ou quem quer que seja. Acho a escola infinitamente melhor. A Laura convive com muitas outras crianças, filhos de amigos e vejo a diferença das crianças que vão e as que não vão para a escola. Prefiro as que vão ... ou melhor, prefiro que a Laura vá. Ela adora ir para a escola, nunca chorou, nunca pediu para não ir. Lá ela brinca e se diverte e eu fico tranquila ... trabalhando ....
Agora, concordo plenamente que nossa jornada é dura, mas não me sinto culpada por trabalhar. Só me sinto cansada .... bem cansada ....

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