terça-feira, 13 de outubro de 2009

Escola é necessidade da mãe e não da criança pequena - Parte II

Os comentários sobre a primeira parte da entrevista confirmam: a escola é necessidade da mãe e não da criança pequena.

Nos dias atuais, os bebês vão para a escolinha para receberem os cuidados que precisam enquanto as mães trabalham, não porque precisem de socialização. As escolas de educação infantil e creches são soluções adequadas para os filhos que não têm a mãe com eles em casa o tempo todo.

De acordo com a psicóloga e psicanalista Audrey Setton, com dois anos de idade ainda não se tem muito claro que o coleguinha é outra criança, e não há o desejo de compartilhar com outra criança. Mas, se a família não tem uma pessoa de confiança para cuidar, oferecendo conforto e atividades para o filho pequeno, a escola é a melhor alternativa.

Com essa idade, é bom, mas não é necessário. “Não quero, de jeito nenhum, passar a impressão de que sou contrária às crianças irem para a escola. Mas não para se socializarem. Se a mãe necessita, se a mãe trabalha, acho ótimo. Eu acho que é uma necessidade da mãe, sim, não é da criança”, ressaltou.

Para ela, a convivência com os outros pode ser introduzida na vida da criança de outras formas, em passeios a um parquinho, acompanhada pela mãe, por exemplo. No entanto, se for para uma escola, a criança tem recursos emocionais para confiar que a mãe gosta dela e vai voltar. Mas a psicanalista não acha recomendável um período muito longo, e insiste que a criança seja deixada na medida da necessidade da mãe.

“Tem um período onde a criança está alegre, feliz. Agora, quando ela vai se fragilizando porque está com fome, está com sede, está cansada, está com dor, essa segurança que ela alcança dentro dela já não se sustenta tanto. A criança vai aprendendo a lidar com o tempo. E o tempo, a princípio, é o tanto que ela aguenta sem a mãe. É claro que ela não sabe o que são 12 ou 13 horas. Ela sabe o tempo que está bem sem a mãe. Então, um período muito longo, realmente fica mais doloroso”, afirmou.

Audrey Setton disse que a mãe precisa ter noção de que o filho ainda é muito grudado nela e que vai sentir a sua ausência. “A mãe vai ter uma missão a mais, na verdade, que é mostrar para esse filho que ela está presente, que ela se preocupa com ele, que ele está na cabeça dela”.

A psicanalista disse que a mudança de rotina na vida da criança traz como novidade a convivência com o outro. E a criança de dois anos de idade ainda não sabe lidar muito com as suas emoções e age com aparente agressividade em determinadas situações. Mas, cabe aos adultos que convivem com ela, pais e professores, apresentarem outros recursos para expressar os afetos.

“Nessa idade, quando está brava, a criança morde. E morde, mesmo! É importante que a escola saiba contextualizar essa mordida numa criança, que não é má, que não foi mal-educada em casa. É uma criança que está, neste momento, expressando a emoção dela do jeito que ela sabe”, explicou.

Segundo ela, é importante que a criança perceba que os outros ficam bravos, magoados ou tristes quando ela morde. Mas, também, que ela saiba que tem o direito de ficar brava porque as crianças ficam bravas e as pessoas fazem coisas que a gente não gosta. Audrey Setton lembra que essa é a idade que a criança se joga no chão do supermercado, esperneia e faz algumas tentativas até que a mãe consiga mostrar a ela que não adianta. “Se você consegue mostrar isso a ela de um jeito bom, ela vai fazer isso algumas vezes e depois para”.

A psicóloga acredita que a boa escola é aquela que respeita o ritmo da criança ao introduzir a nova rotina na vida dela. Aos poucos, as crianças começam a ter uma noção de tempo, a perceber que as pessoas não estão totalmente disponíveis para ela, a saber que as coisas mudam. As crianças aprendem a se ordenar e a se preparar para as coisas que estão chegando. A rotina ajuda a criança a se organizar e ordenar a forma de lidar com o afeto.

Audrey Setton Souza é psicóloga e psicanalista, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

0 comentários:

Postar um comentário

Obrigada! O seu comentário será publicado assim que for recebido pela editora do blog.