Alimentar as crianças sempre foi uma forma de trocar carinho com elas. Acho que aprendi isso com a minha avó. Das melhores lembranças que guardo dela, muitas estão relacionadas à comida. Cozinhar bem sempre foi uma habilidade que persegui para ficar parecida com ela. Da amamentação aos bolos de aniversário; da sopinha quando estão doentes aos pratos prediletos em dias especiais..., o amor dado pela boca é marca registrada da neta da Deola.
A minha avó não era muito de abraços e beijos, mas ligava para avisar que já tinha comprado as bananas para fazer a torta que eu tinha pedido. E eu me sentia muito acarinhada quando ela chegava a minha casa com uma bandeja de doces de leite para compensar mais uma das minhas tentativas frustradas de fazer aquelas delícias cortadas em losangos.
Esse modelo de mãe que alimenta os filhos foi o que escolhi desde a minha estréia na função materna aos 19 anos, não é coisa de mãe quarentona, não. Hoje, sei o quanto o ato de amamentar é importante para o vinculo do bebê com a mãe e para o bom desenvolvimento da linguagem da criança, naquela época, fazia por puro instinto.
Nunca gostei de amamentar em público, conversando ou vendo televisão. É claro que isso aconteceu, e, muitas vezes, é até necessário. O Gabriel mamava no avião para proteger o ouvido, e sempre funcionou muito bem.
Mas o ritual de amamentação com os três sempre foi de tranquilidade e proximidade. Desde os primeiros dias, deixava as visitas na sala e ia para o quarto com os bebês para o momento mais “mãe-e-filho” que existe.
Já com o Gabriel no colo, li, não me lembro onde, que a mãe fica feliz só de olhar para o filho. E as mães sabem que é assim mesmo. É uma alegria intensa, gostosa... E não há momento mais propício para ficar contemplando e lambendo a cria do que amamentando.
Mais recentemente, tenho ouvido dos profissionais da infância, que esse momento de carinho e de aproximação entre mãe e filho não precisa necessariamente do seio para acontecer. Amamentar com o auxílio de uma mamadeira, do ponto de vista do desenvolvimento psíquico e emocional da criança, pode ter o mesmo efeito.
Assim como sempre achei importante ter dado leite materno para os meus filhos, também achava importante continuar amamentando no colo, com toda atenção e carinho, quando eles já estavam tomando mamadeira. Eles nunca ficaram no berço ou no sofá segurando a mamadeira, procedimento comum desde o tempo das meninas pequenas, há mais de um quarto de século.
Não vou falar dos riscos para o bebê pela falta de assistência para tomar a mamadeira, como sufocação e aumento das otites, por exemplo. As informações da fonoaudióloga e psicanalista Eloisa Tavares de Lacerda são sobre a importância da amamentação para o desenvolvimento da linguagem.
Na opinião dela, se utilizadas com critérios, mamadeira e chupeta não prejudicam a fala nem a linguagem. “Nós, psicanalistas, pensamos que uma mamadeira dada com o mesmo carinho que o peito pode ser tão prazeroso para o bebê quanto o momento da amamentação ao seio. Ser uma boa mãe não se dá somente pela amamentação, pois muitas mães não conseguem dar o peito, mas conseguem um ótimo encontro com o seu bebê ao lhe dar de mamar!”
Ela reconhece todos os benefícios do leite humano, do valor nutricional até o fato de não acarretar gastos para as mães mais pobres, mas lembra da capacidade humana de subverter a ordem das coisas e encontrar uma alternativa quando algo não dá para ser do jeito natural.
“Nós humanos inventamos outro jeito e isto nenhum animal o faz. E sabemos que estamos num terreno que foge daquele no qual os animais transitam, que é o dos instintos. Nós humanos transitamos noutro circuito, que Freud chamou de pulsional e não de instintual, pois podemos subverte-lo”, afirmou
A psicanalista lembrou que o bebê precisa de alguém para cuidar dele para que possa sobreviver até alcançar autonomia. E ele também precisa ser amparado física e psiquicamente para desenvolver a linguagem.
“O dar alimento ao filho, no seio ou na mamadeira, inclui o tanto de alimento que sacia a fome e a necessidade dos nutrientes, quanto o alimento que sacia a possibilidade de este pequeno ser se tornar humano. Todo bebê precisa saciar a fome e ter satisfação no momento em que mama porque a relação entre ele e sua mãe deveria se dar de forma a garantir isto que vem junto: nutrição do leite e da relação com a mãe”, explicou.
A fonoaudióloga ressalta que a chupeta e a mamadeira usadas sem critério e por um período além do necessário podem acarretar problemas para o bebê. Do ponto de vista das estruturas anatômicas, existe o risco de deformação de dentes, língua e bochechas com uso inadequado e prolongado. E, do ponto de vista emocional, podem acarretar problemas de ordem mais subjetiva, como a dependência do bebê para se acalmar. Mas, sob esses dois aspectos, Eloisa Lacerda acrescenta o excesso de peito como prejudicial também.
Segundo ela, a chupeta poderia ser uma boa possibilidade de o bebê fazer uma organização própria para se acalmar e para poder suportar o afastamento da mãe. Ela ajudaria a diminuir o estresse dessa primeira distância entre a mãe e o bebê, fundamental para o desenvolvimento físico e emocional da criança.
“Para o bebê conseguir ficar um pouco com ele mesmo, sem precisar estar tão colado à mamãe. E isto gera alívio para ele e para sua mãe que pode perceber que não correrá o risco de ser literalmente engolida por seu bebê. Com relação às questões de linguagem, sabemos que se não se tiver uma distância física e simbólica entre o bebê e sua mãe, ele não poderia adentrar o território da linguagem”, salientou.
Segundo ela, além do uso excessivo, a chupeta e a mamadeira prejudicam o desenvolvimento da linguagem, quando bicos inadequados provocam deformidades. Ela recomenda o uso de bicos ortodônticos, pois são os mais semelhantes ao do seio e, portanto, deformam menos as arcadas.
Eloisa Tavares de Lacerda é fonoaudióloga e psicanalista, coordenadora do Serviço de Acolhimento Relação mãe/bebê da Derdic/PUC-SP e do curso de especialização Clínica Interdisciplinar com o bebê – a saúde física e psíquica na primeira infância da Cogeae/PUC-SP






