terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Adiós, Florencia!

Hoje o dia começou mais sem graça no sexto andar. Temos certeza de que não ouviremos os gritinhos e as risadas da Florencia por aqui. Como será que o Gabriel vai reagir à despedida de uma companheira tão querida?

“Amiga!” Uma das primeiras palavras ditas por ele, identificava com veemência a menininha que adorava encontrar quando abria a porta do apartamento.

Em pouco tempo, os dois já invadiam a casa um do outro, trocavam brinquedos e se divertiam na areia, na piscina, na sala, no quarto, na varanda, no banheiro, no elevador... Quando se viram juntos em uma lanchonete, ficaram enlouquecidos (e os pais exaustos!) com a novidade, foi uma noite inesquecível.

“Mano, Bel!”, insistia Florencia para dançar de mãos dadas com o Gabriel. A amiga que nasceu na Argentina, passou pela Venezuela e morou quase dois anos no Brasil, segue para mais um desafio profissional do pai, agora, no Chile.

Impressionante como desde o início da amizade demonstravam alegria por estarem juntos. Mesmo quando ainda não compartilhavam a mesma brincadeira, o entusiasmo com o encontro era evidente e estridente. Muitas vezes, foi difícil conter a euforia dos dois quando se copiavam mutuamente em caretas, gargalhadas e gritos que ecoavam pelo prédio enquanto rolavam pelo chão.

Com 20 dias de diferença de idade, foram companheiros perfeitos para os primeiros aprendizados como emprestar brinquedos e pedir desculpas. “Dicupa, Foencia!”, repetia, com voz doce, o Gabriel, depois de alguma disputa mais acirrada, passando a mão no rosto dela, molhado por uma lágrima que logo dava lugar a um sorriso.

Ontem, a despedida foi emocionante. Ela ficou comigo enquanto os pais saíram para comprar mais uma mala. Brincaram, pularam, deram tantas gargalhadas... Como sempre!

Para retribuir a motoca roxa e cor-de-rosa que herdou da amiga, o Gabriel deu dois de seus carrinhos para que a Florencia levasse como lembrança. Eles se abraçaram, se beijaram e continuaram dando tchau e jogando beijos um para o outro até que as mães entrassem para os apartamentos. Eu estava chorando, aposto que a Claudia também.

O Gabriel nem está entendendo direito, mas hoje é um dia importante na vida dele. Começa aqui uma nova fase, sem a amiga, de quem tanto gosta, por perto. Imagino que vá ser difícil para quem sai do elevador e olha primeiro para a porta dela; invade em disparada sempre que encontra a porta aberta, e controla quando ela entra e sai, atento a uma palavra, um choro, um grito, uma risada... “A Foencia chegou, mamãe!”

5 comentários:

flavio disse...

Lindo post.

Renata disse...

Tô aos prantos. Em breve o João vai ter que se despedir dos amiguinhos da escola, dos quais tanto gosta...
Mas dando uma de Poliana, tomara que esta experiência ajude o Gabriel a amadurecer, e a começar a entender estas situações tão difíceis da vida. Acho que este é um dos ganhos que ele terá, além, é claro, de ter conhecido a amizade com a Florência.
Lindo texto!

Thamara disse...

Emocionante .... chorei .... ok, isso não é lá muito difícil, afinal sou uma manteiga derretida, mas o texto está lindo. Mais uma vez, parabéns!

Fernando Amaral disse...

Estas primeiras amizades são importantes pra caramba. Os dois supimpas que já mudaram de babá, mudaram de praça, mudaram de escola, que tem duas casas, que tem amigos da antiga praça, da antiga escola, também sabem disso, ainda que intuitivamente. Esta intuição, certamente, vai acompanhar o Gabriel. E ao João também.

Anônimo disse...

Lindo o texto, Thelminha. O Gabriel está passando pela primeira de muitas perdas importantes - as dores que nos fazem amadurecer.

A esse respeito, recomendo a leitura da novela "Campo geral", que narra a estória de Miguilim, de Guimarães Rosa. É simplesmente excepcional.

Muitos bjs e saudades

FE

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