sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Quem procura um lugar para guardar criança?

A partir de um caso recente na Bahia, falei das crianças que não conseguem um convívio maior com os pais nem quando o trabalho deixa de ser a justificativa inquestionável para a ausência.

Mas não são apenas os “filhos da babá com o motorista”, que têm esses empregados domésticos não apenas como cuidadores, mas como as fontes mais seguras e regulares de carinho e de atenção, que passam as férias com monitores. Muitas outras crianças estão na mira do mercado de entretenimento infantil.

Não é preciso ir tão longe ou conhecer um hotel luxuoso para perceber o uso inadequado de espaços e de atividades criados para as crianças. Certa vez, o meu marido ouviu no elevador de um shopping a pergunta inusitada de uma mãe: “Aqui tem lugar de guardar criança?”

Nesta semana, no Shopping Ibirapuera, o Gabriel não pôde participar das atividades de um desses programas de férias, pois é oferecido para crianças acima de três anos. Mas ficamos do lado de fora com ele vendo o final de um teatrinho de fantoches da Turma da Mônica, que encerrava uma programação de 30 minutos.

As crianças entram sozinhas, mas a maior parte dos pais estava ao redor observando o que se passava dentro do “cercadinho”. Minutos após o encerramento da atividade, quando começaram a chamar pelo microfone a mãe de uma menininha que não aparecia para buscar a filha, fiquei indignada. Se não for por uma diarréia, se essa mãe não estava presa no banheiro, não há nada que justifique uma criança pequena passar por uma situação dessas. Será que esse tipo de coisa acontece com frequência?

Quando os pais atrasam para buscar a criança na escola, é um sofrimento grande para ela. As minhas filhas passaram por isso e eu ficava agoniada cada vez que acontecia. Imagine em um shopping, com uma equipe de monitores que a criança nunca viu antes, em um ambiente que ela não conhece. De repente, se vê abandonada.

O que estaria sentindo essa menina ao olhar em volta todas as crianças saindo animadas, contentes, comentando com os pais o que viram e o que fizeram? Será só mais um exemplo corriqueiro do mau uso do que deveria ser uma boa oportunidade de entretenimento nas férias?

Lamentavelmente, parece que a intolerância dos adultos com o trabalho cotidiano e árduo de educar os filhos é evidente em todas as classes sociais e o mecanismo de tentar empurrar as funções materna e paterna para escolas, babás, avós etc. é muito comum. Como a ação mercadológica é rápida, não faltam ofertas de produtos para atender essa demanda crescente.

Esses “espaços kids”, que se proliferam cada vez mais, são para agradar aos pais ou às crianças? Em alguns estabelecimentos comerciais, as brincadeiras não são programadas e oferecidas para o divertimento saudável e prazeroso das crianças, são claramente apresentadas como possibilidade, aparentemente segura, para os pais se livrarem delas.

Em cada fase do desenvolvimento infantil, as necessidades da criança, inclusive no que diz respeito à presença física dos pais, são diferentes. Também vai mudando com o tempo, a capacidade da criança para encarar as mudanças de rotina impostas por uma viagem ou o desafio de participar desacompanhada de uma atividade nova, descobrir espaços diferentes, conviver com pessoas estranhas.

Se para entrar na escola, a criança precisa de uma fase tão cuidadosa de adaptação, por que, de repente, ela pode ser deixada com desconhecidos, num lugar estranho, seja por meia hora, uma tarde ou dias de férias?

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Paternidade terceirizada: “Filhos da babá com o motorista” passam férias com os monitores

O Gabriel se esbaldava na piscina. A empolgação com a água quentinha era tanta, que ele emendava um mergulho no outro numa brincadeira sem fim. Ofegante: “Mamãe, quero pular em pé!”, repetia, incansavelmente, quando emergia de mais um salto da borda que o levava quase ao fundo da piscina.

De repente, um menininho surgiu na minha frente e pediu com voz piedosa: “Você me olha mergulhar também?”. “Claro, vá lá”, respondi, já percebendo que ele queria a mesma atenção que o meu filho estava recebendo. Comemorei o salto dele, elogiei, e ele subiu e pulou algumas vezes, pedindo sempre que eu continuasse olhando. Logo em seguida, outro menino se aproximou e disse: “Eu também sei mergulhar, você me olha também?”.

Nisso, quem gostou foi o Gabriel, que passou a se sentir muito importante enfileirado com dois meninos maiores pulando “junto” na piscina. Encantado, desrespeitava a contagem e não pulava no “já!”, ficava assistindo, e só depois de os dois caírem na água, pulava, todo sorridente.

Não demorou muito para que os meninos percebessem que eu estava mesmo interessada no Gabriel. Em vez de ficar elogiando os dois, me divertia com o Claudio observando a cara de satisfação do nosso meninão, que era coberto de beijos e abraços cada vez que voltava à tona.

Depois de mais uns quatro saltos com a minha atenção voltada para o meu filho, os dois se afastaram e continuaram brincando como estavam antes. Um pouco depois, um monitor pediu que eu chamasse o Rafael para avisá-lo que era hora de sair da água, pois o pai já devia estar chegando para buscá-lo.

Estávamos na Costa do Sauípe, litoral baiano, e os meninos tinham em torno de cinco ou seis anos. Se esse não fosse um blog dedicado ao desenvolvimento infantil, falaria sobre o absurdo da privatização daquela bela praia, no início deste século, Era Antonio Carlos Magalhães, e a manutenção do negócio até os dias atuais.

Mas como o meu assunto é criança, vou citar apenas algumas informações, necessárias para entender o ambiente onde a cena aconteceu. Estive lá como convidada, passei apenas uma alegre tarde “de rico” naquele paraíso cercado para poucos. Um complexo de hotéis e pousadas de alto padrão, cujo acesso, para quem não está hospedado lá, só é possível mediante o pagamento de R$ 50,00 por pessoa (o dia). Os usuários recebem uma pulserinha na portaria para poder circular pelo famoso complexo turístico. Uma equipe de seguranças impede a aproximação de “estranhos”, inclusive pelo mar.

Não é novidade nenhuma que quem escolhe um resort está em busca de tranqüilidade e isolamento. É claro que esses lugares recebem famílias que compram pacotes e passam o resto do ano pagando pelas tão sonhadas férias, valorizadas pela mordomia reservada para poucos. Mas a concepção é elitista e a frequência é majoritariamente de “quem pode”.

Entre as atrações oferecidas por esses “paraísos” há sempre um destaque para as atividades voltadas para as crianças, que ficam aos cuidados dos monitores. Afinal, os pais precisam descansar. Mas, descansar do quê? Do trabalho exaustivo, do trânsito congestionado, do excesso de compromissos ou dos filhos? Não seriam as brincadeiras alegres das crianças um bom “remédio” para os problemas que pesam na cabeça? Para alguns pais, claro que não!

Esse episódio me remeteu à afirmação de uma amiga, professora de uma escola bilíngue frequentada pela elite paulistana. Ela disse que muitos dos seus alunos são “filhos da babá com o motorista”. E essa foi uma figura perfeita para traduzir uma pequena parcela da nossa população infantil.

Segundo ela, são crianças que pouco convivem com os pais. E os resultados desse abandono são sentidos pelos profissionais da educação atordoados com a rebeldia e o desinteresse dos alunos pela escola.

Já ouvi avaliação semelhante de vários professores e funcionários do ensino privado em São Paulo. Não gosto quando retratam a atual geração de pais como irresponsáveis que abandonam os filhos e só pensam em ganhar dinheiro e conquistar sucesso profissional. A maioria esmagadora da nossa população é formada por trabalhadores cujos filhos participam de uma rotina sobrecarregada por longas jornadas de trabalho, transporte precário e atividades domésticas. Adultos e crianças sujeitos à velha luta desigual em um mercado de trabalho exigente e competitivo, que não tem lugar para todos.

E não são todos os pais que costumeiramente trocam as berçaristas, professores, instrutores, treinadores, babás e motoristas pelos alegres monitores, especializados em transformar as férias em mais uma série de atividades programadas e dirigidas, como as aulas de dança, de judô, de natação, de línguas, de instrumentos musicais, e as consultas com psicólogos, fonoaudiólogos, nutricionistas e psicopedagogos das agendas superlotadas das pobres crianças ricas.

As nossas crianças, em geral, não viajam nem têm uma programação especial de férias. Ficam em casa mesmo, gastando boa parte do tempo em frente da televisão, sem sequer uma pracinha na vizinhança para brincar. Elas não estão em busca de um adulto com cara de mãe para exibir um mergulho na piscina, porque, a maioria, nunca experimentou um banho de água azul. Mas estão, igualmente, reclamando a presença e o olhar dos pais, que a vida “moderna” lhes roubou.