Mas não são apenas os “filhos da babá com o motorista”, que têm esses empregados domésticos não apenas como cuidadores, mas como as fontes mais seguras e regulares de carinho e de atenção, que passam as férias com monitores. Muitas outras crianças estão na mira do mercado de entretenimento infantil.
Não é preciso ir tão longe ou conhecer um hotel luxuoso para perceber o uso inadequado de espaços e de atividades criados para as crianças. Certa vez, o meu marido ouviu no elevador de um shopping a pergunta inusitada de uma mãe: “Aqui tem lugar de guardar criança?”
Nesta semana, no Shopping Ibirapuera, o Gabriel não pôde participar das atividades de um desses programas de férias, pois é oferecido para crianças acima de três anos. Mas ficamos do lado de fora com ele vendo o final de um teatrinho de fantoches da Turma da Mônica, que encerrava uma programação de 30 minutos.
As crianças entram sozinhas, mas a maior parte dos pais estava ao redor observando o que se passava dentro do “cercadinho”. Minutos após o encerramento da atividade, quando começaram a chamar pelo microfone a mãe de uma menininha que não aparecia para buscar a filha, fiquei indignada. Se não for por uma diarréia, se essa mãe não estava presa no banheiro, não há nada que justifique uma criança pequena passar por uma situação dessas. Será que esse tipo de coisa acontece com frequência?
Quando os pais atrasam para buscar a criança na escola, é um sofrimento grande para ela. As minhas filhas passaram por isso e eu ficava agoniada cada vez que acontecia. Imagine em um shopping, com uma equipe de monitores que a criança nunca viu antes, em um ambiente que ela não conhece. De repente, se vê abandonada.
O que estaria sentindo essa menina ao olhar em volta todas as crianças saindo animadas, contentes, comentando com os pais o que viram e o que fizeram? Será só mais um exemplo corriqueiro do mau uso do que deveria ser uma boa oportunidade de entretenimento nas férias?
Lamentavelmente, parece que a intolerância dos adultos com o trabalho cotidiano e árduo de educar os filhos é evidente em todas as classes sociais e o mecanismo de tentar empurrar as funções materna e paterna para escolas, babás, avós etc. é muito comum. Como a ação mercadológica é rápida, não faltam ofertas de produtos para atender essa demanda crescente.
Esses “espaços kids”, que se proliferam cada vez mais, são para agradar aos pais ou às crianças? Em alguns estabelecimentos comerciais, as brincadeiras não são programadas e oferecidas para o divertimento saudável e prazeroso das crianças, são claramente apresentadas como possibilidade, aparentemente segura, para os pais se livrarem delas.
Em cada fase do desenvolvimento infantil, as necessidades da criança, inclusive no que diz respeito à presença física dos pais, são diferentes. Também vai mudando com o tempo, a capacidade da criança para encarar as mudanças de rotina impostas por uma viagem ou o desafio de participar desacompanhada de uma atividade nova, descobrir espaços diferentes, conviver com pessoas estranhas.
Se para entrar na escola, a criança precisa de uma fase tão cuidadosa de adaptação, por que, de repente, ela pode ser deixada com desconhecidos, num lugar estranho, seja por meia hora, uma tarde ou dias de férias?


